sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O PAGODE BAIANO (parte II)

Se por um lado o pagode baiano expressa a voz da classe popular, essa voz, do ponto de vista de gênero, é masculina, e vai significar o outro, a mulher, a partir do que os membros de uma sociedade, da qual ele faz parte e dialoga, considera. Mas na prática as relações de gênero são mais complexas e muitas vezes as contradições dessa relação se expressam no próprio enunciado.  A performance do homem, corpo semiótico do qual parte enunciados conflitantes, em relação à mulher, ratifica uma antiga representação de mulheres que ora aparece como uma "patricinha" (as musas, anjos, deusas, virgens) que correspondem às mulheres que possuem um comportamento mais próximo ao que se convencionou chamar de "moça de família", a escolhida para ser a "mãe dos seus filhos" e com quem correrá menos riscos. É a mulher para ser apresentada socialmente aos amigos, parentes, etc, ora aparece como "piriguete" (as medusas, as pandoras, os demônios, as serpentes) que precisam ser mantidas a uma certa distância, mas eventualmente próximas a fim de que possam realizar as suas fantasias e desejos sexuais.  Do ponto de vista da classe social, o pagode pode ter um valor cultural, já que as vozes que estão performatizando as músicas e até mesmo compondo são de sujeitos da periferia das cidades, das classes populares. No entanto, faz-se necessário também deixar registrado que esses sujeitos não estão isolados do mundo e que fazem parte de um legado cultural, diversamente cultural, e que são afetados pelo discurso hegemônico machista e misógino, presentes em vários setores da sociedade. Se por um lado, pode-se considerar o pagode como uma "livre" expressão de uma classe, não podemos deixar de dizer que essa liberdade é obtida mediante negociações e a grande negociação é o que se diz em relação às mulheres.  As letras trazem enunciados que nos fazem lembrar discursos misóginos seculares eivados de preconceitos, já que a liberdade para a mulher consiste em um autocontrole do seu corpo, o que pode deixar o outro na posição de controlado. Este poder levou muitas mulheres à fogueira séculos atrás. Logicamente, que os discursos caminham no sentido de que tal posição da mulher não deve ser aceita pelo homem e dele deve partir as regras de conduta das mulheres. Quando este homem é da classe popular, as regras ganham um tom universalizante, pois atravessa diferentes camadas sociais, agradando a todos. O homem é educado para controlar tudo, inclusive o corpo da mulher. O discurso encontra uma realidade não muito nova, já que quando as mulheres se libertam totalmente das amarras sociais (e numa sociedade patriarcal, inclui-se a sexualidade) emergem enunciados, proferidos por homens, que os mostram ameaçados diante dessa mulher e, por conta disso, passam a ofendê-las, desqualificá-las, xingá-las, agredindo-as fisicamente, podendo o gesto culminar com a morte. Tal recorrência enunciativa contribui para a reificação da assimetria dos gêneros e para uma reeducação dos gêneros pautados em velhos esquemas sexistas. Quando os enunciados dos homens registram a desqualificação das mulheres, é quando elas exercem mais controle sobre seus corpos e poder sobre eles, só que os desdobramentos podem ser danosos à mulher porque o sistema ainda é patriarcal e não vê punidade ou meio de coibição para a violência masculina, tornando aceitáveis letras que violentam as mulheres, abrindo, com esta permissividade, para outras aceitações tão violentas quanto. O caráter subversivo através da sexualidade não parece acontecer, pois o fato de falar abertamente sobre algo não significa necessariamente uma postura subversiva em relação ao código social, pois a ciência e a religião sempre falaram sobre sexualidade, mas para torná-lo o mais silencioso possível. Essa liberdade no contexto atual é falsa, já que é pautada em antigos discursos binários de controle sexual das mulheres. Além disso, o contexto histórico e social não pode ser desconsiderado em uma análise, pois o popular está em contato com outros  registros, com a tecnologia, a história, os disursos, enfim, com tudo que a globalização oferece, incluindo os discursos estereotipados e preconceituosos.  

O conflito no discurso enunciado pelos homens ocorre ao trazer a "piriguete" como a mulher desejada, que o faz se sentir mais viril, mais macho, e ao apresentá-la como sendo a razão do seu infortúnio, já que ela também pode significar a sua derrota, seja através de uma negativa inicial, imediata, como não querer dançar com ele ou sair para ir ao cinema, seja através de sua performance, não ter boa "pegada", não beijar bem, não ter bom papo e não atender as expectativas durante o prazer sexual. Ao perceber que não consegue controlar uma mulher que sabe o que quer e que esse querer não o inclui, a sua raiva é extravasada porque afeta o que ele internalizou e que caracteriza, neste modelo de sociedade, um homem vitorioso, daí a desqualificação imediata à mulher. A sociedade patriarcal que confere poderes plenos aos homens, lhes concede também as razões para o seu fracasso, em outras palavras, o aspecto que pode elevá-lo, pode também destruí-lo. O seu comportamento nada mais é do que o produto de um sistema que o sabota.


Para mudar esse quadro, precisamos ter consciência de como a sociedade cria expectativas de gênero, cabendo às mulheres e aos homens corresponderem a elas ou não. E mais: perceberem que as performances são móveis, situacionais. O grande problema, a meu ver, é que o discurso hegemônico focaliza um aspecto central da cultura patriarcal que é o poder do macho em todas as suas dimensões sociais e a sexual é uma delas porque, paradoxalmente, nela reside a sua fragilidade. Nesse jogo de mascaramentos, expressos por um ódio perverso, esconde-se um sistema opressor para homens e mulheres, muito mais para elas que são desonradas, agredidas, humilhadas e muitas vezes mortas.

Bem, para mostrar que pode-se fazer pagodes  com letras criativas que promovam a cultura baiana, sem desqualificar os sujeitos que nela habitam, cito a música Açaí Granola, do grupo Sam Hop. Segue a letra:

Açaí Granola
Sam Hop


Açaí granola, curió gaiola, gravata gola,
limão sacola, chuteira bola,
Dona Isabella vendeu panela pra Dona Estela,
Seu Agenor que é machucador. (2x)


Tem, tem, tem colar de Gandhi, Gandhi, Gandhi,
chapa de flande, flande, flande e alho macho. (2x)


O velho mascando jiló, corante de canela em pó,
cachaça de alambique, topic pra Paripe. (2x)
E de repente um som, SAM HOP,
rolava o ti ti ti, o brother do cafezinho gritava assim: (2x)


E êta diaxo e vem pra debaixo,
Êta diaxo e vem. (2x)
Música na feira, música na feira. (2x) 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Eleições, mídia e aborto

Por que será que exatamente neste momento o aborto passou a ser o ponto central e determinante que qualificará ou não o futuro presidente da República?

As mulheres sempre se preocuparam com este assunto, sejam elas feministas ou não. A diferença é que as feministas percebem que as recusas em se discutir o assunto não ajudam a melhorar a situação das mulheres que vão continuar a abortar ou, pior, gerar filhos para serem colocados na lata de lixo - na melhor das hipóteses - ou mesmo matá-los.

De repente, quando uma mulher está disputando o poder, eis que surge o aborto para direcionar os eleitores e eleitoras e,quiçá, alterar o quadro das eleições, favoráveis até o momento à candidata Dilma. Como os votos a serem disputados são de Marina que teve o apoio de quase 20% do eleitorado, cristãos e ambientalistas, tem-se a ideia de que esse público não migrará para Dilma (sim, porque o alvo é Dilma). Ora, se os cristãos são contra o aborto, as cristãs não podem ser a favor da criminalização das mulheres pelo fato de terem de decidir sozinhas que destino dar a sua vida,  já que nessas horas o Estado se omite e o parceiro a abandona. Acima de tudo o problema maior hoje é depositar todo o crédito â mulher do seu infortúnio como se o embrião fosse fruto de geração espontânea ou obra do espírito santo. Ninguém fala em responsabilizar o genitor ou o Estado que não cria mecanismos regulatórios que coibam a propaganda que incita as meninas e os meninos a fazerem sexo irresponsavelmente. Por que não se faz filme, telenovela, romances, histórias em quadrinhos que focalizem homens e mulheres se respeitando mutuamente? Por que na hora que o problema aparece a responsabilidade recai EXCLUSIVAMENTE na mulher? E a família que incentiva as práticas sexistas em casa? Ela não tem a sua parcela de responsabilidade? No dia em que se ajustar isso e de fato a legislação passe a funcionar de forma justa erradicando as imagens erotizadas de meninos e meninas, adolescentes e jovens certamente o aborto terá outro tratamento. Quem é reponsável pela publicidade veiculada pelas empresas de turismo que prostitui as meninas e meninos?

O aborto é uma ponta do iceberg. Debaixo dessa ponta existe uma base patriarcal que sustenta o cinismo e a hipocrisia social. E ainda tem gente - ilustrada de canudo na mão - que ainda diz que não existe patriarcado. Diante dessa reação, só posso explicar tamanho reacionarismo acadêmico através do conceito de "backlash", de um refluxo no qual as feministas - teóricas ou militantes - por se posicionarem publicamente denunciando as estruturas opressoras contra a mulher são rechaçadas publicamente, questionadas sobre a validade de sua abordagem teórica ou luta. Só muita misoginia pode dar conta de explicar a razão pela qual acadêmicos ou não (está tudo nivelado, a misoginia não tem fronteiras) reagem de forma agressiva e contundente sobre a necessidade de se estudar a condição da mulher hoje.