sexta-feira, 11 de março de 2011

MULHER MARAVILHA, NÃO FUJA!

LIGA DA JUSTIÇA
LEVA NÓIZ

"É melhor chamarmos os outros Super-Amigos antes que chegue toda a Legião do mal."

Super-Man ficou fraco,
O Pingüim jogou criptonita
Lex Luthor e Coringa roubou laço da Mulher Maravilha (2x)

Liga da Justiça toda dominada,
Agora só tem uma saída!

Foge! Foge Mulher Maravilha!
Foge! Foge! Com Super-Man. (8x)

Você é minha Maravilha e eu sou seu Super-Man,
No swing aqui do Leva eu quero ver você meu bem! (2x)

Liga da Justiça toda dominada,
Agora só tem uma saída!

Foge! Foge Mulher Maravilha
Foge! Foge! Com Super-Man. (8x)

Super amigos, Salvador City! (4x)

A música Liga da Justiça foi uma das mais tocadas durante o Carnaval baiano e o seu sucesso deve-se, a meu ver, a um conjunto de elementos que agrada as pessoas, de um modo geral. Para começar, existe uma referência às personagens conhecidas das crianças, adolescentes e adultos (que já passaram pela fase) através das revistas em quadrinhos, animações e filmes. Os super-heróis pertencem a um domínio coletivo graças aos meios de comunicação de massa e ao poder que esses personagens possuem, como: voar, ter força física, ler pensamentos, enfim, poderes sobrehumanos em geral. No entanto, os super-heróis trazem, sobretudo, uma ideologia que consiste em, numa visão maniqueísta, dominar o “mal”, fazendo a justiça (aos olhos de quem?) com base em um discurso moralmente ético, que envolve valores como a amizade, a união, entre outras, de grande importância para as pessoas. No entanto, a música, longe de romper com esses valores (e não era para fazê-lo mesmo, dado ao contexto: carnaval, alegria, união), ratifica-os, mas desloca o locus discursivo: do lugar do opressor para o oprimido (para citar Freire). Em outras palavras, reconhece o domínio e controle da sociedade pelos “vilões”, os que estão à margem, os que, embora inteligentes, criativos, foram relegados pelo sistema.  

Um segundo aspecto sedutor, refere-se à ludicidade. Além da popularidade do pagode na cultura baiana, a letra permite uma performatividade que envolve coreografia, o uso de fantasias, maquiagem, e é de fácil assimilação. O refrão é repetido várias vezes (o portal do Terra, informa 8 vezes).

O último verso: “Super amigos, Salvador City”, solto e ambíguo, ora parece fazer alusão aos vilões (super amigos entre eles) ora aos membros da Liga da Justiça, foragidos (também super amigos entre eles). Há novamente uma referência à inversão: quem está foragido não é mais o “vilão”, mas os “heróis”. Salvador City alude a Gotham City, sendo que, Salvador está sob o controle de Lex Luthor e Curinga.

Outro enunciado ambíguo é o que aparece logo início: "É melhor chamarmos os outros Super-Amigos antes que chegue toda a Legião do mal." Aparentemente, parece estar se referindo aos outros super-heróis, mas quando voltei o olhos para o restante da música, retomei o enunciado e percebi que houve uma desacomodação no plano da significação, dos sentidos. Quem são os amigos e quem é a Legião do mal? Uma questão de perspectiva mais uma vez.

Mas, é inconteste que a Mulher Maravilha teve um destaque na música, visto que é endereçado a elas. Afinal, o conselho para fugir com o super man, já não tão super assim, é para a mulher maravilha, menos maravilhosa.

Vimos que a Liga da Justiça parece representar os heróis como a voz da instituição, enquanto os outros, que ficam à margem, seriam os vilões, os subtraídos pela probreza. Na música os vilões vencem (de certa forma os moradores da periferia se vêem numa posição de confronto com o sistema). Se por um lado, eles põem em xeque o poder dos heróis, por outro eles confirmam o poder do homem, já que cabe à mulher maravilha fugir com o super homem, mesmo ele tão desempoderado quanto ela, o que significa dizer que mesmo nas mesmas condições frente a uma dada dimensão, em outra, a de gênero, ele prevalece. Previsível, pois é ele quem conta a história.

A SOLUÇÃO para a mulher diante do perigo é fugir... mas tem que ser com um homem. A música, neste aspecto, é antifeminista não porque o homem se faz presente, mas porque atrela a mulher a uma dependência ao homem. Além de mostrar uma mulher acovardada, ela, frente ao homem, aparece duplamente enfraquecida e vulnerável, por ser uma representante do sistema e por ser mulher. Os “vilões” que aparecem na música são todos homens.

Bem, isso nos faz pensar em muitas coisas, como, por exemplo, de ouvir as mulheres enquanto sujeitos do discurso. Porém, uma pergunta se faz: na atitude responsiva, ela já não estaria formulando um discurso? Sim, mas, não consigo enxergar uma proposta discursiva na área artística, no âmbito da composição, da criação, que possa minar com o que está posto, sem criar uma situação difícil para a mulher. Vejo que, neste sentido, parece que a mulher continua atrelada aos esquemas e com muita dificuldade em viver de outra forma, de dizer outra coisa, que não faça parte do estabelecido. A pergunta que me faço é se, tendo a voz, os meios, ainda assim, as mulheres não estariam dizendo as mesmas coisas que eles, em outras palavras, reproduzindo a imagem distorcida das mulheres que chega para elas através de uma apropriação indevida.

Assisti a alguns desfiles das escolas do Rio de Janeiro e pude ver claramente como o poder fica concentrado nos homens. Puxadora de samba? Composição do samba-enredo de autoria feminina? Não existe. Apenas o Salgueiro é presidido por uma mulher.

6 comentários:

  1. Lúcia querida:
    Tudo bem? Meu nome é Cacilda. Fui sua colega em uma especialização na UFBA, lembra-se? Estava dando uma voltinhas na web quando encontrei esse seu espaço. Muito bom!! Esse texto da música veio ao encontro de coisas que gostaria de discutir com minhas turmas, e pretendo levá-lo (com os devidos créditos, é claro!) na próxima semana. Beijão, saudades e parabéns!
    Cacilda
    cacildasantana2@hotmail.com

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  2. Oi, Cacilda, claro que me lembro de você!
    Como está?
    Que bom que a web nos permite esses prazerosos encontros.
    Fico feliz com esse encontro e com ouso do texto em suas aulas. Acho que a ideia é essa mesma, trocar, interagir. Beijo grande e saudades dos nossos divertidos papos.
    Vamos manter contato. Me escreva: ltleiro@gmail.com
    Há também outro texto sobre carnaval, desta vez falando do cinema nas escolas de samba do Rio.
    www.mulherecinema.blogspot.com

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  3. Gostei muito da critica !!!

    Parabéns!!!
    Andreia

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  4. Olá Lúcia,
    Venho pesquisando na web textos que discutam perfis femininos nas composições baianas. Percebe na sua escrita a consistência de quem estuda a linguagem para estabelecer descobertas, assim sua voz é ímpar e forte, porque nos suscita à reflexão.Parabéns.Gostaria de ler comentários seus sobre "Intimidade pública" de Marina Colasanti.

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  5. Olá Izabel
    Obrigada por este retorno. É sempre bom interagir com as pessoas que transformam leitura em reflexões críticas. Você é uma delas. Em relação ao texto de Colasanti, não tive a oportunidade de ler, mas a sua provocação foi acolhida. Um abraço

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  6. Além disso...há tbm o duplo sentido, ao passo que a palavra foge ao ser cantada pode ser confudida com outra(tira-se o g e poe-se o d no lugar).
    Tem um fundo erótico nisso.

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